As armadilhas que só aparecem neste par de línguas, cada uma com a frase corrigida do lado.
Se você chegou aqui atrás do significado de uma palavra solta, vale entender por que a tradução direta resolve tão pouco neste par. Square traduz quadrado quando é a figura e também quando é a praça da cidade, mas o quadrado de um número é squared, e alguém de ombros largos é square-shouldered. Cavalo é horse até a hora em que você fala do cavalo do xadrez, que é knight, ou do cavalo do ginásio, que é vault. Uma lista de equivalências acerta o primeiro sentido de cada palavra e erra todos os outros, e é por isso que a pergunta útil quase nunca é o que a palavra significa, e sim em que frase ela vai entrar.
A vantagem que o português entrega é enorme e pouco comentada. Boa parte do vocabulário culto do inglês entrou pelo latim através do francês, então necessary, frequency, construction e possible já chegam quase prontos na sua cabeça, sem estudo nenhum. Um leitor brasileiro ou português costuma entender um artigo técnico em inglês muito antes de conseguir pedir um café sem travar. Esse desequilíbrio entre o que você compreende e o que você produz é a marca deste par, e não é sinal de que você estudou errado.
As dificuldades de verdade se concentram em três lugares, e os três são pequenos o bastante para caberem numa página. O primeiro é a boca: o português organiza sílabas de um jeito que o inglês não aceita, e o resultado é a vogal que brota no fim de dog e a nasalidade que escapa em qualquer palavra terminada em m ou n. O segundo é um punhado de reflexos gramaticais, quase todos ligados ao verbo ter e ao fato de o português dispensar o sujeito. O terceiro é o vocabulário parecido demais, que engana justamente porque parece familiar e por isso passa sem despertar suspeita.
Uma observação sobre registro: o texto usa o português do Brasil, que é o lado com muito mais gente aprendendo inglês, mas praticamente tudo aqui vale igual para quem fala português europeu, e onde a diferença conta de verdade ela está anotada na hora. Vale dizer também o que não é problema neste par, porque isso poupa energia: a ordem básica da frase é a mesma, o alfabeto é o mesmo, e o inglês abandonou o gênero gramatical, o que apaga de uma vez toda a concordância de artigo, adjetivo e particípio que o português obriga você a acertar em cada frase.
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Toda porta de loja no Brasil tem puxar escrito nela, e esse é provavelmente o melhor falso amigo que existe entre duas línguas quaisquer: a palavra inglesa parecida, push, significa empurrar, ou seja, exatamente o contrário. Puxar é pull. Se você levar uma única linha desta página, leve esta: Pull the door, do not push it. O detalhe que torna o caso tão bonito é que milhões de pessoas passam pela palavra todos os dias e o erro nunca aparece, porque ninguém está lendo em inglês.
Os outros da mesma família enganam pelo mesmo mecanismo. Cada item abaixo traz a frase inglesa já corrigida, que é a única forma de fixar:
Repare no que esses casos têm em comum: nenhum deles produz silêncio ou cara de confusão. Eles produzem uma frase inteira, bem construída, que o ouvinte entende sem esforço e entende errado. Um erro de gramática faz o interlocutor pedir para repetir; um falso amigo faz ele concordar com a coisa errada e seguir em frente. Por isso a correção precisa vir da frase pronta e não da lista de significados.
Vale um aviso final sobre os meio amigos, que são mais traiçoeiros que os falsos completos. Realize também existe no sentido de concretizar, mas só em registro formal e com objetos como plano ou ambição. Assist aparece em contexto técnico onde o português usaria auxiliar. Ou seja, a palavra parecida não está proibida, ela está apenas confinada a um canto estreito do idioma, e usá-la fora desse canto é o que soa estrangeiro.
Existe um traço que identifica um falante de português falando inglês antes de qualquer outro, e é a vogal que aparece onde não deveria haver nada. O português quase não termina sílaba em consoante, então a boca resolve o desconforto acrescentando um som de i: dog vira dogui e hot dog vira hotchi dogui. O mesmo acontece no meio da palavra, sempre que duas ou três consoantes se encontram sem vogal entre elas. A correção é mecânica e rende rápido, porque o problema não é ouvir, é soltar: no fim de dog, bad ou stop, a língua ou o lábio encosta e o ar simplesmente para. Não existe liberação em vogal depois. Treinar palavra a palavra resolve mais do que qualquer explicação teórica.
O segundo traço é o oposto: nasalidade a mais. O português tem vogais nasais de verdade, e não, bom e sim treinam o dia inteiro um gesto que o inglês nunca usa. Em inglês, o m e o n finais são consoantes inteiras, com contato completo: os lábios fecham em some, a ponta da língua encosta atrás dos dentes em sun, e a nasalidade mora na consoante, não na vogal antes dela. Quando o falante de português nasaliza a vogal e engole a consoante, sun, some e sung desabam num som só e o ouvinte perde a palavra inteira.
O terceiro é uma troca que acontece nos dois sentidos ao mesmo tempo. O r inicial do português brasileiro soa como o h aspirado do inglês: rato começa com o mesmo sopro de hat. E o h escrito em português não soa nada, como em hoje. O resultado previsível é que hat perde o sopro e rat ganha um, e as duas palavras trocam de lugar. Treine os pares diretamente: rat e hat, arm e harm, eat e heat. Em português europeu o r inicial é uma vibração mais atrás na garganta e o efeito é mais fraco, mas o h mudo apaga do mesmo jeito.
Sobra o inventário de vogais, que é o trabalho longo. O inglês separa pares que o português junta num som só, e a diferença não é de comprimento, é de posição da língua:
Junte a isso o som médio átono, aquele resmungo curto que o inglês coloca em quase toda sílaba sem acento: banana tem três vogais escritas iguais e só a do meio soa por inteiro. Aqui os dois portugueses se separam, porque o europeu já reduz bastante a vogal átona e chega com meio caminho andado, enquanto o brasileiro pronuncia cada vogal com valor cheio e precisa aprender a apagar de propósito. E aceite que a escrita não vai ajudar: though, through, thought e tough terminam igual no papel e não rimam entre si.
O português deixa o sujeito de fora sempre que pode. Chove é uma frase completa, com verbo, sentido e ponto final. O inglês não aceita frase sem sujeito, nem quando não existe sujeito nenhum para colocar, e por isso ele inventa um: It is raining. Esse it não aponta para coisa alguma, é apenas a cadeira vazia que a gramática exige preencher. Vale para tempo, hora e distância: It is cold today., It is late., It is far from here. Quem traduz do português esquece o sujeito e produz frases que soam como telegrama.
Do mesmo tronco sai o erro mais frequente de todos: o verbo ter usado para existir. Tem um problema vira Has a problem, que em inglês não quer dizer nada, porque falta quem tem. O inglês reparte o ter português em dois verbos diferentes: have para posse e there is ou there are para existência. O certo é There is a problem. e There are two ways to do it. Este é o reflexo que mais entrega um falante de português, e também um dos que somem mais rápido quando a pessoa percebe que são dois verbos e não um.
O tempo composto é a armadilha seguinte, e ela é sutil porque a forma é idêntica. Tenho feito não é I have done. Em português, tenho feito descreve algo repetido nos últimos tempos e que continua, o que em inglês pede I have been doing. Na direção contrária, o português usa passado simples onde o inglês quer o composto: Já almocei é I have already had lunch. A regra prática que resolve a maioria dos casos é que o tempo composto inglês fala do agora, não do passado; ele diz em que estado você está por causa do que aconteceu.
Nem tudo é perda. O inglês largou o gênero gramatical, e isso apaga de vez a concordância de artigo, adjetivo e particípio: o plural é um s no substantivo e pronto. Mas existe uma troca escondida nesse alívio. O possessivo inglês concorda com o dono, não com a coisa possuída, então o carro dela é her car e o carro dele é his car. O seu do português, que é ambíguo de propósito, obriga você a escolher toda vez em inglês.
Faltam três reflexos rápidos. O adjetivo vem antes do substantivo, e quando há vários a ordem é fixa: opinião, tamanho, idade, forma, cor, origem, material. Uma casa branca grande é a big white house, nunca a white big house. Nenhum falante nativo sabe enunciar essa regra, e todos percebem quando ela é quebrada. Depois, o auxiliar de pergunta e negação, que não tem equivalente em português: Do you like it?, She does not work here., Did they call? O português faz pergunta só com entonação e nega só com uma palavra, então o auxiliar precisa ser instalado como hábito novo. Por fim, a negação dupla: Não vi ninguém vira I did not see anyone. ou I saw nobody., nunca as duas negações juntas na mesma frase, como o português exige.
O dicionário dá uma palavra inglesa para cada portuguesa, e com as palavras do dia a dia isso quase nunca basta. Estas você usa todo dia, e em inglês elas se dividem em duas ou três, ou caem onde o dicionário não avisa.
O padrão se repete: a palavra portuguesa é mais larga e deixa o resto para o contexto, e o inglês obriga a escolher. Às vezes é o contrário, como com know e time. Confira cada palavra dentro de uma frase.
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